““Já não ouvia o som do motor da mota de Hugo a rugir, lá em baixo, nem as suas mãos fortes a enfiar a chave na fechadura, e muito menos ouvia quaisquer pancadas na porta de madeira ou os seus gritos furiosos. Não havia passado nesse instante, nem medo, nem tormento. Santiago levava-a a esquecer tudo isso, o príncipe do seu palácio e do seu mundo cor-de-rosa. Só uma coisa não podia ser esquecida, mas já a esquecera, entretanto. As cartas de Hugo continuavam escondidas por baixo do assento do sofá e fora ela própria a escondê-las. Porque é que o fizera? Para quem? Para si mesma ou para o marido? Pouco importava. Só o gesto já era uma mentira e uma traição e não sabia o que faria quando voltasse a recordar-se delas outra vez e daquilo que a esperava. E muito menos sabia o que faria quando voltasse a esquecer as cartas e Hugo, porque quando o fizesse, jamais se recordaria de retirar as missivas debaixo do assento do sofá e o marido iria descobrir todas as suas mentiras, antes que ela lhas pudesse revelar””